Passado, presente e futuro do Comentarista de Rodeio

Por Thiago Arantes
 

                        Quem frequenta os rodeios já deve ter visto ou ouvido uma pessoa falando após as montarias e que não é locutor de arena, mas sim uma segunda voz que verbaliza sobre o que aconteceu naquele momento. Essa voz falada e não narrada que sai pelos alto falantes é a do Comentarista, uma profissão em grande ascensão nesse esporte rural e que muitas vezes passa despercebida.

 

                        Na área jornalística, o comentarista, termo utilizado no Brasil, ou comentador, usado pelos europeus, é o profissional que se pronuncia sobre determinado assunto, com uma profundidade superior a de um leigo, demonstrando grande conhecimento.

 

                        Da mesma forma, na imprensa esportiva e, principalmente no rodeio, a função do comentarista é explicitar os fatos ocorridos proporcionando uma visão técnica do esporte, levando ao público que assiste ao espetáculo todas as infomações necessárias para o completo entendimento das regras, curiosidades dos atletas, animais e demais profissionais envolvidos, além de fazer uma leitura da montaria usando o recurso do replay, mostrando detalhes que não puderam ser vistos num primeiro olhar.

 

                        De uma forma geral, todos nós somos comentaristas, ou seja, comentamos uns com outros sobre o aconteceu na partida de futebol, na política, no cotidiano como um todo. Assim também é no rodeio, onde todos se conversam e dão a sua opinião sobre determinada montaria, competidor, animal, enfim, são comentaristas nato. A diferença está na posição assumida por quem comenta, se está em uma transmissão para milhares de pessoas ou apenas na rodinha de amigos, porém, o ato de comentar é sempre o mesmo.

 

                        Com esse raciocínio fica claro observar que os comentaristas de rodeio no Brasil sempre existiram, mesmo de forma informal. Isso nos remonta a época em que as lonas de circo cobriam o picadeiro de Barretos, interior de São Paulo, em meados da década de 50, no século passado, cujos presentes comentavam a respeito da coragem dos ginetes. As informações e opiniões mais detalhadas eram passadas pelos narradores que tinham o microfone ou corneta como instrumento de som.

 

                        Fica difícil identificar, portanto, quem foi o primeiro comentarista do rodeio brasileiro, pois desde que o rodeio começou a ser difundido pelo interior do país, muitas foram as pessoas e autoridades que faziam uso do microfone para elogiar e até mesmo criticar um detalhe ou outro do rodeio. Os juízes que avaliavam as montarias ora ou outra pegava o microfone e explicava as regras antes ou durante o rodeio, sendo essa uma característica marcante de quem comenta.

 

                        Nesse mesmo sentido, a própria imprensa, escrita e falada, noticiava o crescimento do rodeio, cujos jornalistas se passavam momentaneamente por comentaristas desse esporte. Cito o exemplo do Paulo Stain que durante as transmissões do antigo Circuito Fivela de Ouro pela extinta Rede Manchete, no ano de 1991, comentava as montarias ao vivo em rede nacional depois que eram narradas pelo locutor Asa Branca na arena. 

 

                        Ainda em meados de 90, o Pedro de Alcântara e o Professor Tenório, juntamente com outros ícones do microfone, quando não estavam narrando, estavam no palco de Barretos agradecendo a colaboradores e tecendo alguns comentários do rodeio, de forma tímida e genérica.

 

                        Nessa época, rodava pelas bancas do interior, a revista Rodeio News, do editor e fotógrafo Almer, cujas matérias assinadas traziam os seus comentários a respeito de algum fato ou profissional do rodeio.

 

                        Com o surgimento do primeiro programa específico sobre rodeio na televisão brasileira, chamado de "O Chão é o Limite", levado ao ar pela Rede Record de Televisão, oficialmente em abril de 1993, fez nascer a figura do comentarista propriamente dito, isto é, alguém que estava ali exatamente contratado para comentar as montarias e que possuía um entendimento profundo do esporte. Estou falando do empresário e tropeiro Paulo Emílio, o qual fazia o comentário das montarias dos campeões de cada cidade apresentada no programa.

 

                        Esse mesmo programa revelou também o Esnar Ribeiro, ex-peão e hoje apresentador do Programa Top Team TV e comentarista das arenas. Durante as transmissões, pelo Chão é o Limte, da NFR – National Finals Rodeo, ocorrida em Las Vegas, Esnar fazia comentários técnicos e específicios, mostrando aos telespectadores uma nova forma de analisar o rodeio e com isso atraiu muitos fãs e adeptos ao esporte.

 

                        Vamos mudar o foco dos comentaristas televisivos e jornalisticos para nos concentrar novamente nas arenas. O ano é 1994, segundo ano do rodeio internacional de Barretos, consequentemente vários estrangeiros aterrisaram na arena do interior paulista. O brasileiro Adriano Moraes, que na época estava montando nos Estados Unidos, fazia a pedido do locutor um comentário sobre cada gringo que iria montar. Observem que essa é uma função típica dos comentaristas de rodeio atualmente, mas que na época não era exercida oficialmente por alguém.

 

                        Diante disso, pensando na evolução do rodeio no Brasil e na carência de informações do público sobre o que ocorria na arena, foi que Emilio Carlos dos Santos, o famoso Cacá de Barretos, com todo seu conhecimento e poder de comunicação, subiu aos palcos e assumiu o microfone com a incumbência de transmitir os dados que realmente interessavam sobre o rodeio. Em 1994 ele passou por uma experiência com microfone nas arenas de Barretos, mas foi em 1995  que realmente comentou na íntegra um rodeio, atuando não só em Barretos mas tambem em Jaguariúna e outros grandes eventos.

 

                        Paralelo ao desempenho de Cacá, o atleta Adriano Moraes, que em 1995 estava afastado das arenas por uma contusão, fazia também os comentários nas arenas e inclusive participou das transmissões ao vivo do rodeio de Jaguariúna pela Rede Bandeirantes ao lado do Datena, onde ficou demonstrado que a profissão de comentarista havia chegado pra ficar.

 

                        Em 1996, surge a FNRC – Federação Nacional do Rodeio Completo e com isso a ideologia de transformar a festa de peão em esporte regulamentado e reconhecido fez com que a entidade contratasse um comentarista em cada etapa. O único comentarista do Brasil na época era justamente o Cacá e foi exatamente ele o responsável por assumir a função.

 

                        Sem dúvida esse foi o marco principal para evolução do esporte. O rodeio no Brasil começou a ter uma nova cara. Personagens começaram a aparecer e o público passou a entender e visualizar cenas da montaria que antes era esquecida ou trocada por um verso do locutor. 

 

                        Os organizadores e o próprio público perceberam que um rodeio sem uma pessoa para esclarecer o que acontecia na arena ficava muito vago. Além do mais, com o avanço das transmissões internas de telões nas arenas e mais adiante com o rodeio digital e eletrônico, que assim como hoje dava uma séria de informações técnicas e numéricas da competição, necessitava realmente de um comentarista ao lado do narrador.

 

                        Dado o pontapé inicial, foram em seguida surgindo outros nomes no cenário dos comentários de rodeio, entre eles, o já citado Esnar Ribeiro, que em virtude da sua vasta experiência tanto nas arenas quanto nas telas dos vários programas em que atuou, estreou como comentarista em 2001, na goiana Rio Verde, transformando seu conhecimento em palavras nos microfones do rodeio dessa cidade, expandindo-se em seguida para outros milhares de rodeios pelo Brasil a fora.

 

                        A busca por comentaristas foi tão grande pelas comissões organizadoras que outros nomes foram surgindo. Alguns são ex-peões, organizadores de eventos, conhecedores do esporte e que colocaram em prática o seu conhecimento, outros iniciaram como locutor e acabaram virando comentarista, enfim, para cada personagem há uma história diferente. Dentre os que hoje se destacam, além do Cacá e Esnar Ribeiro já mencionados, cito sem me colocar na lista, os profissionais Anderson Guardiano, André Metzker, Eugênio José, Enrique Moraes, Rogério Paitl, Vinicius Vulpini, Celso Russo, Cleiton Moreira, Ricardo Sabino, Pirú, Lala, Carlão, entre outros grandes nomes que vêm fazendo diferença pelos rodeios do Brasil.    

 

                        Como comentarista desse esporte eu costumo dizer que o rodeio em si, focando somente a montaria, é muito simples e pobre, pois de um lado um ganha e o outro perde, sempre. Em outras palavras, numa montaria ou ganha o touro ou o peão, nunca dá empate. Por isso é preciso que alguém explore todo esse universo que ronda uma montaria, e como no Brasil existem mais de 1.200 rodeios anuais, com certeza tem espaço para muitos comentaristas nas arenas.

 

                        Com essa ascenção dos comentaristas, os próprios "locutores" de rodeio também vem aprimorando a forma de narrar as montarias, deixando versos e brincadeiras de lado e se concentrando na competição. Na minha ótica, o narrador ideal é aquele que narra com absoluta precisão, com incrível visão do lance e de todos os envolvidos na montaria, antecipando o que vai acontecer, fazendo com que um cego sinta a sensação de estar vendo o rodeio só de ouvi-lo narrar.

 

                        Particularmente eu acredito que uma boa fórmula para os rodeios atuais seja a dos esportes americanos, onde o narrador costuma ser alguém carismático e que usa bordões para incendiar as narrações, e os comentaristas são sempre pessoas que entendem muito do lado técnico do esporte. Sugiro ainda uma terceira pessoa, a do repórter que entre os intervalos realiza entrevistas, assim como no futebol. Pronto, esse é modelo para que tanto público quanto os profissionais possam gozar de uma transmissão perfeita de um evento.

 

                        Para quem deseja ser um comentarista é importante saber que não há escola ou faculdade, muito menos um padrão definido, cada um tem o seu perfil e a sua maneira de comentar. Ter sido competidor ajuda muito, mas não é essencial para ter sucesso na profissão.

 

                        Sob o meu ponto de vista, o comentarista deve dominar a comunicação verbal e de maneira simples e segura trazer informações novas e fazer observações exclusivas que poucos conseguiriam fazer. Para chegar até esse ponto, deve realizar pesquisas e ir a fundo nos conhecimentos sobre o rodeio e seus personagens, ver e analisar milhares de montarias, entrevistar os profissionais do meio para adquirir dados e estar sempre atualizado sobre o rodeio nacional e mundial. É um trabalho que se assemelha a de um jornalista. Mas atenção, comentarista jamais deve querer comentar narrando, e sim apenas falando.

 

                        No Brasil existe uma Classificação Brasileira de Ocupações – CBO, criada através de Portaria do Ministério do Trabalho e Emprego e que tem por objetivo identificar as ocupações no mercado de trabalho. A de Comentarista de Rodeio está classificada sob o número 3763-10, permitindo inclusive registro em carteira de trabalho e inserção nos planos de previdência social, embora seja uma utopia falarmos nesse assunto na atual conjuntura.

 

                        O futuro da profissão de Comentarista de Rodeio promete muito e creio que não haverá nenhum evento sem a presença dele interagindo com o narrador. E vai aqui uma mensagem aos organizadores de rodeio: muita atenção ao se contratar um profissional do ramo, consulte-nos antes de bater o martelo, afinal, são vários os gabaritados comentaristas disponíveis no mercado e uma má contratação pode manchar a reputação do seu evento, pois o microfone é uma arma que depois de atirada não tem como voltar novamente na cápsula.

 

 

            Thiago Arantes

            Comentarista de Rodeio

            Teodoro Sampaio – SP

            (18) 3282-3464

            (18) 9127-9653

            (18) 9613-3476

             thiago-arantes@hotmail.com

             www.twitter.com/thiagoarantes81

 

Data:15/03/2010
voltar